10 de setembro de 2016

Eu tinha que falar neste assunto...

"Devo confessar-vos que nunca pensei que fosse um produto de tão boa qualidade quanto diziam. Tenho sempre o pé atrás em relação a produtos farmacêuticos que, a par de caros, têm um resultado oposto do que aquilo que prometem na minha pele."

Intrigados? Eu passo a explicar. Ontem encontrei esta frase num blogue português, onde o autor fazia a review de um produto da La Roche-Posay, marca de dermocosmética, que poderão encontrar nas Farmácias e espaços de saúde. O blogue em questão é o Pieces of Me, do Miguel Gouveia.


Uma vez que sou farmacêutico especializado em dermocosmética, gosto de ler as reviews que diferentes bloggers fazem sobre os mais diversos produtos, sejam eles do ramo Farmácia, supermercado ou até mesmo perfumaria. Constato que grande parte desses mesmos bloggers pouco ou nada sabem da área, escrevendo, algumas vezes, atrocidades sobre os produtos que experimentam. Isto quando experimentam os produtos mais adequados ao seu tipo e estado de pele, claro está. Sim, porque há muita gente por aí com pele seca que utiliza hidratantes indicados para peles mistas a oleosas.

Faz sentido? Não!
Mas para alguns deve fazer...

Sendo farmacêutico, e estando à vontade para falar sobre a qualidade, segurança e eficácia dos diferentes produtos de dermocosmética que são comercializados neste canal negocial (diga-se, Farmácia), posso dizer-vos que fiquei um pouco escandalizado com a descredibilização do Miguel face aos produtos farmacêuticosPor aquilo que li, depreendo que ele já deva ter tido uma má experiência com algum produto deste ramo e, como ele não funcionou, qualquer outro também não funciona. Ou seja, não há segundas oportunidades.

Defendendo a minha área, todos os produtos são sujeitos a longos e morosos processos de controlo de qualidade e de estabilidade, bem como de eficácia, como é óbvio. Caso o produto não esteja conforme, o produto não é comercializado. Ponto final. Outro ponto igualmente importante é aquilo que a marca alega sobre o produto. Se um produto alega que "matifica a pele", só depois de demonstrar que por A+B, e com base em artigos científicos, é que obtém autorização para fazer essa menção no rótulo do produto. Caso contrário, não pode! Tão simples quanto isto.

Quanto ao preço, sim, os produtos de Farmácia têm um preço mais elevado que os produtos que encontramos no supermercado ou em vendas por catálogo, tipo Avon e Yves Rocher, entre outros. (Assim como os produtos de perfumaria e de cabeleireiro têm um preço superior aos de Farmácia).

Porquê? Simples. O tempo de pesquisa e de estudo é maior, logo comporta mais custos; as matérias-primas utilizadas, bem como as técnicas de produção são diferentes e mais dispendiosas, logo isso reflecte-se tudo no preço. Um exemplo: alguns produtos da marca A-derma ou Avène têm um dispositivo estéril de fórmula intacta (DEFI) que faz com que o produto nunca seja contaminado pelo ambiente exterior. Acham que este tipo de sistema é barato? Acham que este produto, com esta tecnologia, vai ter o mesmo preço que os produtos da marca branca do Lidl, a Cien? Não!

Atenção que não estou a descredibilizar os produtos do ramo de supermercado. Estou a fazer ver que, em termos de preço, não podemos fazer uma comparação directa. Se os produtos de supermercado têm qualidade? Sim, alguns têm uma boa formulação. Se são controlados? Nisso tenho as minhas dúvidas...

Relativamente ao ponto em que o Miguel afirma que os produtos farmacêuticos têm o efeito oposto àquele que prometem, na pele dele, podemos falar disto de uma maneira muito simplificada.

A nossa pele, ao longo de cada ano, e ao longo dos anos, apresenta diferentes necessidades. Não é novidade para ninguém que, durante o Inverno, sentimos a nossa pele mais seca do que no Verão, logo precisamos de um produto um pouco mais nutritivo nessa altura do ano. Ao longo da nossa vida, vamos verificando sinais de fadiga, algumas pequenas rugas, flacidez (uma vez que somos um país Ocidental e com uma maior percentagem de peles mistas a oleosas, há uma maior prevalência de flacidez cutânea, comparativamente a rugas de expressão), perda de luminosidade, de firmeza e de densidade. Logo, faz todo o sentido de X em X anos alterarmos a nossa rotina para produtos mais nutritivos, com vitamina C e E para conferir maior luminosidade e densidade, ácido hialurónico para preenchimento de rugas e hidratação, entre outros. Adaptamos os produtos às necessidades da nossa pele.

Outro ponto bastante importante é darmos tempo aos produtos para eles actuarem. Não há milagres nem nenhum dos cremes é o Speedy González. Não podemos esperar que um produto faça logo o seu efeito no primeiro dia. Alguns efeitos, tipo matificar, verificamos logo na primeira aplicação. Outros, como anti-manchas, anti-envelhecimento ou perda de luminosidade, vamos verificando ao longo do tempo. Normalmente, temos que esperar 28 dias que é o tempo que demora uma renovação celular (ou, mais "cientificamente" falando, o turnover celular).

Se um produto não funcionou comigo, numa determinada altura do ano, no meu tipo de pele, estando ela num determinado estado, nenhum vai funcionar?
Se não funciona comigo, não vai funcionar em mais ninguém?
Vamos descredibilizar todos os produtos de um determinado ramo porque um (no meio de milhares) não funcionou comigo?

Em jeito de despedida, deixo aqui alguns conselhos ao Miguel:
- Antes de afirmares que os produtos não funcionam, tenta perceber o que é que se passou. Possui algum ingrediente a que sejas alérgico? O produto não era o mais indicado para o teu tipo de pele?
- Pesquisa. Mais e mais. Sempre mais. Tenta perceber o porquê de haver estas diferenças de preços, dos ingredientes que cada marca utiliza e quais as suas implicações/complicações.
- És digital influencer. Ao não expressares correctamente uma opinião, induzes em erro os teus leitores/seguidores, ou seja, dizeres abertamente que os produtos de farmácia não funcionaram no teu caso, não justificando tal facto, fica-te mal. Influencias mal as pessoas que te lêem e que te seguem.

2 comentários:

  1. Uma das coisas que menos gosto é o facto das pessoas falarem sem saberem do que falam... Gratuitamente. Meu deus

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    1. Infelizmente encontram-se muitos blogues que só falam dos produtos porque sim. Não se interessam em explicar as coisas mas sim em "aquela pessoa usa aquele produto porque eu disse que resulta".

      A sede de "poder virtual" aumentou a olhos vistos. É pena que grande parte dos leitores não faça um filtro da informação que encontram e encarem tudo o que este blogues dizem como lei.

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